A Festa
História

UM BREVE HISTÓRICO DA FESTA DA POLENTA


Padre Cleto Caliman deixou um grande legado para Venda Nova e para quem vive por onde ele passou


A ideia de Fazer uma Festa da Polenta em Venda Nova foi do saudoso padre Cleto Caliman. Nos dias 7, 8 e 9 de outubro de 1978, nas dependências da Igreja Matriz, aconteceu uma prévia do que se tornaria o evento. Foi um encontro de famílias de Venda Nova, somando cerca de 150 pessoas que degustaram a polenta e outros pratos típicos.


De acordo com o relato de um grupo de cozinheiras pioneiras, as irmãs Haydèe e Carmem Feitosa prepararam em casa o capelete para 200 pessoas. Os outros pratos foram produzidos em um fogão improvisado e servidos no almoço: galinha, batata, arroz, e, é claro, polenta.


A primeira


No ano seguinte, em 1979, acontece a primeira Festa da Polenta oficial, desta vez em uma estrutura improvisada no pátio do Colégio Salesiano  (hoje Fioravante Caliman). Desta vez foi realizada a primeira missa do evento com a participação do Coral Santa Cecília.


Dona Erlinda Falqueto Caliman, popular Arlinda, com sua experiência de cozinhar para uma grande família, ficou durante cinco anos à frente da cozinha, junto com Alcino Falqueto, Rafael Zandonade, Angelina Brioschi, Aniceta, Lúcia, Enedina e Cacilda Caliman e outras.


A cozinha era precária. O fogão era um amontoado de quatro pedras, com a chapa que Arlinda levava de sua própria casa, e a cobertura da cozinha era de lona, o que a tornava um verdadeiro forno.


A partir da sexta Festa, Rafael Zandonade ficou durante três anos à frente. Depois Dona Cacilda Caliman Lorenção enfrentou o comando dos fogões durante mais três anos, seguida de Idalete Falqueto (e o esposo Dácio), que até hoje fazem parte da equipe.


Atrações


As atrações das primeiras festas se limitavam às apresentações do Coral Santa Cecília e, como a comunidade sempre foi muito religiosa, a missa sempre fez parte da programação.


A Festa da Polenta seguiu durante muitos anos no pátio do Colégio Salesiano e, com o aumento do público, veio a necessidade do crescimento estrutural e organizacional.


Em 1991, o evento ganha personalidade jurídica com a criação da Associação Festa da Polenta. Em 1995, construído pela Municipalidade, o Centro de eventos Padre Cleto Caliman passa a abrigar a Festa da Polenta e os demais eventos da cidade.


A Festa da Polenta é organizada e executada por cerca de 1.300 voluntários distribuídos em dezenas de equipes. De cunho filantrópico, após o evento, realiza-se uma assembleia na qual a diretoria presta contas e submete o evento a uma avaliação, quando é definida a distribuição de parte dos recursos arrecadados para as entidades filantrópicas como Hospital e Apae.


Durante o ano, a Afepol mantém projetos culturais e promove eventos que reverenciam a cultura do imigrante italiano.


Padre Cleto Caliman, o pai da Festa da Polenta é um homem reverenciado por sua história


Padre Cleto, o pai da Festa da Polenta, morreu no domingo de Carnaval de 2005 e deixou a Festa da Polenta como uma grande herança para Venda Nova e todo o Espírito Santo. O evento figura entre muitas iniciativas do religioso, autor de marcas de progresso por onde passou.


Moderno e irreverente, padre Cleto abriu caminhos para empreendimentos na educação, comunicação, saúde e cultura em Venda Nova. Os Correios, o hospital, a Escola Fioravante Caliman (que nasceu Salesiano) e o Coral Santa Cecília estão entre conquistas suas e da comunidade.


Reverenciado por muitos, padre Cleto Caliman recebeu muitas homenagens em vida e, dentre elas, o Centro de Eventos- onde acontecem esta e outras festas- foi batizado com o seu nome.


Padre Cleto sempre foi um homem de vanguarda e suas marcas estão em todos os cantos da cidade, na memória da população e no coração dos amigos, que são muitos.


Amante do vinho e da gastronomia,Padre Cleto teve uma vida que ainda é festejada. Viveu como poucos e deixou um legado valioso. Ele foi e é um verdadeiro presente para Venda Nova.


 


A Festa da Polenta, uma de suas grandes criações


Antes de partir para uma viagem à Russia, em 1999, padre Cleto concedeu uma entrevista ao Jornal da cidade, o “Folha da Terra” e contou como ele teve a ideia de fazer a Festa da Polenta. “Surgiu por acaso. Recebi o convite do padre Luiz Marchezi para participar da primeira Festa da Polenta em Sagrada Família, em Alfredo Chaves. Somente 50 pessoas participaram e me veio a ideia de fazer uma em Venda Nova, considerando as características do nosso povo. Em 1979 fizemos a primeira Festa e deu no que deu. Lá (em Alfredo Chaves) não aconteceu”, disse numa referência a falta de continuidade da festa naquele município.


Em outra ocasião, ele disse ao mesmo Jornal: “Deus me deu um estalo na cabeça e me veio a ideia: lá em Venda Nova vai dar certo. Aí não deu outra (...) A Festa não está só limitada aos comes e bebes, está caminhando para uma maior preservação da cultura italiana trazida pelos nossos avós que sofreram com o progresso. Essa é a nossa identidade e maior expressão da cultura ítalo-brasileira do Estado.”


Ainda na entrevista de 1999, Padre Cleto se lembrou que no início a festa era muito simples: “a polenta pura e simples, feita no tacho e espalhada na tábua. Era sempre servida em pratos de louça e talheres emprestados pelas donas de casa. O queijo e a linguiça ajudavam a compor o prato.”


Na ocasião, o religioso comentou considerar que a Festa estava no caminho certo: “além de valorizar a culinária como aspecto cultural, resgata e valoriza a música, a dança, as vestes e outras características do imigrante italiano. O cunho social e turístico também é muito importante.”


Para padre Cleto, o mais bonito era o trabalho voluntário. “Não conheço movimentação semelhante no país. A Festa da Polenta é uma promoção comunitária, que tem a origem no sentimento comunitário das pessoas e o objetivo também de atender os anseios comunitários da população. Por isso dá certo. Porque é um ciclo que não termina.”


Até 1983 o próprio padre Cleto ficou à frente da Festa da Polenta e, com a sua transferência do Instituto Salesiano de Venda Nova para Silvânia, em Goiás, em 1984 o evento abriu para formação de novas lideranças.


Plantio do Milho abre calendário de eventos culturais da Festa da Polenta


Várias gerações se encontram para reviver os costumes do início da chegada das primeiras famílias de imigrantes italianos em Venda Nova. O Plantio do Milho abre a programação anual da Festa da Polenta, que acontece sempre em outubro.


Sempre no mês de março em uma das propriedades da comunidade, o evento, além de cultivar a matéria prima principal da polenta (o milho que se transforma no fubá que faz a polenta), também recria o modo de cultivo de antigamente, quando as famílias tinham poucos recursos.


A ideia é reviver, da mesma forma que os nonnos, todo o ritual da cultura do milho, que sempre foi o principal alimento de subsistência do lugar. Homens, mulheres e crianças se vestem tipicamente. Elas usam roupas floridas, com aventais e lenços, e ele, a tiraca (suspensórios) e chapéu e as crianças imitam os seus pais.


Além de reproduzir as vestes e o modo de produção, vários rituais são mantidos como o lanche distribuído no meio do trabalho e a confraternização ao final, com músicas e muitas comidas típicas. Comidas simples como inhame e banana cozida compõem as ofertas, que resgatam antigas e deliciosas receitas mais elaboradas.


Depois de terminados os trabalhos, uma mesa farta espera os voluntários. Enquanto saboreiam as delícias oferecidas, todos conversam, relembram histórias e, como sempre, cantam as mais lindas cancionetas italianas.


Colheita do Milho para garantir a Polenta da Festa


As espigas já estão no ponto e poucos dias antes de começar a Festa da Polenta, os voluntários se reúnem para a Colheita do Milho. O plantio é feito no início do ano, geralmente no mês de março, em uma das propriedades da comunidade de Venda Nova, onde acontece a famosa Festa da Polenta.


A Colheita adianta um pouco do clima do evento e um grupo de voluntários, vestidos como os nonnos e as nonnas, colhe o milho. Assim como no ritual do Plantio, a música e a culinária se fazem presentes, numa demonstração da cultura do imigrante italiano de Venda Nova.


Na pausa dos trabalhos, todos saboreiam um lanche com broa, banana cozida, crostoli e outras delícias típicas. No final, uma mesa farta é oferecida aos participantes e, em torno dela, todos cantam as cancionetas italianas trazidas pelos imigrantes e botam a conversa em dia.


O milho colhido é usado para preparar a polenta servida na Festa e na decoração e nas atividades do Paiol do Nonno, como a moagem de milho no moinho de pedra movido a água.


O evento é o último antes da Festa e faz parte do calendário anual da Afepol, que também realizou o Plantio do Milho (março ou abril) e a Serenata Italiana (julho).

Granello Giallo: o grupo de dança difusor da cultura italiana


O Gruppo di Ballo Granello Giallo, de Venda Nova, fez sua primeira apresentação de dança na 25ª Festa da Polenta. Foi na programação de 2003 que as duplas do grupo estrearam e o nome ganhou espaço definitivo entre os atrativos da Festa da Polenta.


Criado para suprir a própria necessidade de atrações típicas locais dentro da Festa da Polenta, o Granello Giallo é mantido pela Associação Festa da Polenta- Afepol. Para sua criação, a instituição providenciou professores, patrocinou as vestes dos integrantes e ainda mantém as principais necessidades para sua continuidade.


O repertório é variado: ''Ballo di Nastri’' (a dança da fita), ''Ritorno del Mare’' e a mais tradicional da Itália, a ''Tarantela’', nas versões calabresa, vêneta e napolitana. Com a ''Manfrina’' acontece a integração com o público, chamado para dançar, executando os passos que aprendem na hora.


Depois da estreia, o grupo de dança folclórica italiana recebeu vários convites e já se apresentou em diferentes municípios do Estado e, em 2017, viajou também para Varre-Sai (RJ), na 4ª edição da Festa do Imigrante Italiano- foi a segunda vez.  O grupo já se apresentou em várias outras cidades, como na capital do Rio de Janeiro, Manhuaçu e Resplendor (MG) e Bento Gonçalves e Monte Belo do Sul (RS).


Difusão


Em busca de difundir a dança, o Granello Giallo já promoveu vários cursos de formação em dança típica e cultura italiana para jovens a partir dos 14 anos. Os cursos abrem oportunidade para a entrada de novos integrantes e visa dar continuidade ao grupo.


Além de difundir a cultura, outro objetivo do grupo é fazer uma reflexão da importância do trabalho voluntário em Venda Nova. Todos os integrantes são voluntários, movidos pela mesma energia que faz da Festa da Polenta um evento único ao unir dedicação, solidariedade e muito amor a uma história construída com muito trabalho e fé pelos antepassados.


Texto: Lilia Gonçalves